sábado, 16 de setembro de 2017

Forças Armadas cogitam interromper ajuda ao Rio por atrito com a Segurança

Recentes críticas de integrantes da secretaria às tropas federais desagradaram comando, que vê 'ingratidão'; após desentendimento.


Rio - O Ministério da Defesa cogita suspender a Operação O Rio Quer Segurança e Paz devido a desentendimentos com a Secretaria de Segurança  do Rio. Recentes críticas de integrantes da Seseg à ação das tropas federais no Estado desagradaram ao comando das Forças Armadas, segundo apurou o Estado. A irritação poderia levar à paralisação ou ao fim da colaboração, que foi até objeto de campanha publicitária do governo federal em emissoras de televisão. Oficialmente, o Comando Militar do Leste afirma que o trabalho conjunto continua. A Seseg elogia o "exitoso histórico" das ações.
Forças Armadas cogitam interromper ajuda ao RioFoto: Severino Silva / Agência O Dia
A declaração que gerou mais mal estar na Defesa foi do chefe da Polícia Civil, Carlos Leba. Ele disse que as Forças Armadas estariam atrapalhando o sucesso das operações integradas, pelo modo do órgão atuar ser diferente. O secretário de Segurança, Roberto Sá, declarou que preferia ajuda financeira para a Segurança à ação das forças federais. Essa fala também foi mal recebida pelos militares. A possibilidade de encerramento da colaboração foi revelada pelo  jornal carioca "O Globo" e confirmada pelo Estado.
Com o desconforto no comando da Defesa, o ministério avalia se compensa gastar cerca de R$ 50 milhões para a permanência no Rio, além de mobilização de milhares de homens, se a secretaria estadual avalia mal o trabalho. As declarações dos chefes da Seseg também foram vistas como  "ingratidão" já que, segundo fontes de Brasília, tudo foi feito atendendo a pedido do governador do Rio, Luiz Fernando Pezão (PMDB).
Militares das Forças Armadas fizeram megaoperação em conjunto com a PM e a Polícia Civil em Niterói. Moradores relataram tiroteio em comunidades durante açãoFoto: Severino Silva / Agência O Dia
Por isso, o Ministério da Defesa cogita paralisar a Força-Tarefa até que seja feito um "freio de arrumação" do plano com a Secretaria de Segurança. A medida provisória publicada no dia 4 de setembro autorizou o aporte de R$ 47 milhões de recursos para a ação, e o decreto de 28 de julho, o emprego das Forças Armadas para Garantia da Lei da Ordem no Rio.
Até agora, houve três operações integradas entre Forças Armadas e as polícias Civil e Militar do Rio. Os resultados das apreensões de armas e prisões foram considerados modestos. Não houve, por exemplo, apreensão de fuzis, embora o uso desse tipo de arma tenha se tornado corriqueiro entre criminosos do Rio, que os usam até para assaltar farmácias e bares. Há suspeita de vazamento prévio de informações para os bandidos.
Notas
Em nota oficial, o Comando Militar do Leste afirma que o Plano Nacional de Segurança está em vigor e "permanece em condições de realizar o planejamento e a coordenação de ações integradas, mediante solicitação da Secretaria de Estado de Segurança, e aguarda provimento de recursos orçamentários para o desencadeamento de novas operações".
Já a Secretaria de Segurança afirmou, também por meio de nota, que deflagrou, no último mês, três grandes operações integradas, que viabilizaram a prisão de 88 pessoas. Nelas, as polícias Civil e Militar atuaram nas comunidades no cumprimento de mandados, as Forças Armadas ficaram responsáveis pelo cerco no entorno das áreas e garantindo a ordem.
"A ação das Forças Armadas nas operações se soma a um extenso e exitoso histórico de ações integradas com a Seseg", afirmou, no texto. A secretaria informou ainda que a Força Nacional também realiza operações de combate ao roubo de cargas. "Somados ao reforço da Polícia Rodoviária Federal nas estradas, o esforço das forças de segurança impacta positivamente nos indicadores de criminalidade".
O texto prossegue com avaliação otimista dos resultados das ações integradas. "Dados parciais do mês de agosto mostram que os roubos de cargas vêm apresentando redução em 2017 desde o mês de maio. Quando consideramos os delitos pela data do fato, a redução entre maio e agosto é de 27%. Cinco delegacias distritais responderam por quase 2/3 da redução observada entre esses meses - 21ª DP (Bonsucesso), 39ª DP (Pavuna), 40ª DP (Coelho Neto), 26ª DP (Lins de Vasconcelos) e 58ª DP (Posse)", informa a nota da Seseg.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Os 12 suspeitos: quem é quem no 'quadrilhão do PMDB' apontado pela PF

Ao concluir investigação sobre a suposta organização criminosa formada por integrantes do grupo político conhecido como PMDB da Câmara, a Polícia Federal colocou Michel Temer no centro de dois organogramas no quais orbitam auxiliares diretos, ex-assessores que já foram presos e aliados de longa data do presidente.
Além de Temer, apontado no relatório como alguém que tinha poder de decisão nas ações do grupo, a PF identificou outras 11 pessoas que seriam parte do que agora está sendo chamado de "quadrilhão do PMDB".
O aumentativo "quadrilhão" é uma alusão ao tamanho e ao poder dos integrantes do grupo suspeito de, entre outros crimes, organização criminosa - quando quatro ou mais pessoas se associam para o fim específico de cometer infrações penais cujas penas máximas superem os quatro anos. 
Os investigadores dividiram os integrantes do grupo entre primeiro e segundo escalões.
"Importante frisar, antes, que tais nomes não apareceram de forma aleatória. Na verdade, diversos réus e investigados colaboradores indicam fatos relacionados aos integrantes da organização, informações obtidas justamente por fazerem parte, cada um ao seu modo, das engrenagens que mantém em funcionamento o esquema criminoso, mas integrando os seus devidos lugares nos núcleos administrativo, financeiro e empresarial", diz o relatório da PF.
São seis os apontados como integrantes do grupo político/gerencial e, nas palavras da polícia, "há outros indivíduos com participação não tão destacada, ou hierarquicamente menos relevante no grupo do 'PMDB da Câmara'". Esse segundo grupo, continua a PF, atua como "longa manus", "orbitando e executando as decisões tomadas pelo 1º escalão."
O relatório da Polícia Federal foi encaminhado ao Supremo Tribunal Federal (STF) e deve servir de base para o procurador-geral Rodrigo Janot oferecer provável nova denúncia contra Temer.
O presidente e principais auxiliares rechaçaram todas as suspeitas levantadas pelos investigadores. Temer disse que nunca "participou nem participa de quadrilha" - em nota divulgada nesta terça pela Presidência, afirma que "facínoras roubam do país a verdade" e que "bandidos constroem versões" em busca de imunidade ou perdão de crimes.
Confira quem é quem no primeiro e segundo escalão da organização apontada pela PF, e o que dizem os suspeitos. A BBC Brasil não conseguiu contato com os representantes legais dos citados que estão presos e com alguns dos outros suspeitos.

Michel Temer, presidente do Brasil

Além de destacar "a extensa carreira política" do presidente, a PF afirma que Temer tinha "poder de decisão nas ações do grupo do PMDB da Câmara" para indicar cargos estratégicos e articular com empresários beneficiados nos supostos esquemas ilícitos. 
"E, como em toda organização criminosa, com divisão de tarefas, o presidente Michel Temer se utiliza de terceiros para executar ações sob seu controle e gerenciamento", escreveu a PF.
São atribuídos a Temer os crimes de corrupção passiva, embaraço de investigação de infração penal praticada por organização criminosa, caixa 2 eleitoral e lavagem de dinheiro. Segundo os investigadores, ele teria recebido mais de R$ 30 milhões de "vantagem".
A PF afirma que foram usados como evidências as delações do operador Lúcio Funaro e da JBS, a análise do celular do ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha, e investigações como a que monitorou o ex-assessor de Temer, Rodrigo Rocha Loures, que recebeu uma mala com R$ 500 mil da multinacional brasileira.
Em nota divulgada pela Presidência da República, Temer nega as acusações, classificando-as de "insinuações descabidas".
"O presidente tampouco fez parte de qualquer 'estrutura com o objetivo de obter, direta ou indiretamente, vantagens indevidas em órgãos da administração pública'", diz o texto. 
Ao comentar a divulgação do relatório, a nota afirma que Temer "lamenta que insinuações descabidas, com intuito de tentar denegrir a honra e a imagem pública, sejam vazadas à imprensa antes da devida apreciação pela Justiça".
Moreira Franco diz que jamais participou "de qualquer grupo para a prática do ilícito" | Foto: Antonio Cruz/Ag. Brasil

Moreira Franco, ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência

Ex-deputado federal, o ministro ocupou a Decretaria de Aviação Civil no governo Dilma Rousseff entre 2013 e 2014. Foi nomeado por Temer como secretário do Programa de Parcerias de Investimentos, cargo no qual esteve entre maio de 2016 e fevereiro de 2017, quando foi promovido a ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência e passou a desfrutar de foro privilegiado.
De acordo com o relatório da PF, "há indícios de ter sido beneficiário" de um pagamento de R$ 5 milhões feito por uma construtora e que teria sido destinado a Temer. Suspeita-se que esse valor tenha sido contabilizado como caixa 2 eleitoral e refira-se a uma contrapartida dos interesses da empreiteira OAS na concessão de aeroportos, "conforme consta em relatório de análise das mensagens encontradas no celular de Eduardo Cunha".
Moreira Franco também é suspeito de ter solicitado contribuições eleitorais para o PMDB e de ter sido beneficiado com pagamentos de esquemas de propina da Caixa Econômica Federal.
O ministro nega todas as acusações e afirmou repudiar a suspeita. "Jamais participei de qualquer grupo para a prática do ilícito", disse ele, que acrescentou que vai responder "de forma conclusiva quando tiver acesso ao relatório do inquérito". 

Henrique Eduardo Alves, ex-presidente da Câmara e ex-ministro do Turismo

Foi o deputado federal com maior tempo no cargo, tendo permanecido na Câmara por 44 anos, de 1971 a 2015, quando assumiu o Ministério do Turismo ainda no governo Dilma Rousseff.
Alves voltou a ocupar a mesma pasta na gestão Temer, mas acabou perdendo o cargo em junho de 2016, depois de ter o nome citado pelo ex-senador e ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado como beneficiário de R$ 1,55 milhão em propina entre 2008 e 2014.
"Devido à sua trajetória e influência no PMDB na Câmara, por vezes dividia com Eduardo Cunha a indicação de postos importantes pleiteados pelo grupo", destaca o relatório da Polícia Federal, que aponta Alves como "figura de destaque no núcleo político investigado".
O ex-ministro foi presidente da Câmara entre fevereiro de 2013 e a fevereiro de 2015.
Ele ainda é suspeito de ser beneficiário de uma offshore sediada em Cingapura, que operava, por meio de transações ilícitas, recursos que teriam sido desviados da Caixa. A PF lista valores que se aproximam dos R$ 30 milhões como "vantagem" atribuída ao ex-deputado e usa como evidências depoimentos de três colaboradores.
Alves, que está preso desde junho de 2017, é também alvo de uma operação que investiga corrupção ativa, passiva e lavagem de dinheiro na construção da Arena das Dunas, estádio construído no Rio Grande do Norte para a Copa de 2014, realizada pela OAS. 
Preso, Geddel desce do avião escoltado pela PF: Geddel Vieira Lima foi preso pela segunda vez na semana passada | Foto: Valter Campanato/Ag. Brasil

Geddel Vieira Lima, ex-ministro

Geddel foi deputado federal por cinco mandatos, líder do PMDB em várias ocasiões e, segundo a PF, atuava em "perfeita sintonia com Eduardo Cunha".
O relatório afirma que ele "transita entre os núcleos político e administrativo do grupo investigado, tendo sido peça fundamental na organização criminosa no período em que foi vice-presidente na Caixa", cargo que ocupou entre março de 2011 e dezembro de 2013.
No governo Temer, Geddel foi nomeado ministro da Secretaria de Governo e tinha como atribuição, nas palavras da polícia, "coordenar o relacionamento do Executivo com o Congresso". Perdeu o cargo depois de pressionar o então ministro da Cultura a liberar uma obra de seu interesse em uma área protegida de Salvador.
Geddel foi preso pela segunda vez na semana passada. A polícia encontrou as digitais do ex-ministro em notas guardadas em malas e caixas de dinheiro que, somadas, ultrapassavam os R$ 51 milhões e estavam guardadas num apartamento que estaria sendo usado por ele.
Ele é suspeito de corrupção passiva e de ter cometido fraudes para liberar recursos para diferentes empresas no período que esteve na Caixa. 

Eduardo Cunha, ex-presidente da Câmara

Deputado federal desde 2003, foi presidente da Câmara entre fevereiro de 2015 e julho de 2016, tendo renunciado ao comando da Casa depois de ser acusado de ter recebido e administrado de forma ilegal recursos fora do país.
Para a PF, Cunha é "figura central do grupo investigado" e operador "da maior parte dos crimes praticados pela organização criminosa". No organograma da PF, ele aparece ao lado de Temer.
Além de poder de decisão, escreveram os investigadores no relatório, ele indicava pessoas para cargos estratégicos, cooptava empresários para pagamento de propinas em troca de contratos e liberação de recursos e também apresentava atos legislativos "em benefício de ações criminosas".
A polícia acredita ainda que Cunha era chefe informal do operador Lúcio Funaro, determinando quem seriam os beneficiários finais dos recursos captados sob a forma de propina pelo grupo. Diz ainda que "praticamente todos os crimes levantados levam a assinatura" do ex-deputado. 
Preso desde outubro de 2016, ele já foi condenado a mais de 15 anos de prisão pelo juiz federal Sergio Moro. Planilhas apreendidas com um dos delatores sugerem que ele tenha recebido mais de R$ 130 milhões. 
Eliseu Padilha: Padrilha disse que só vai se pronunciar "quando e se houver acusação formal contra ele que mereça resposta" | Foto: Marcelo Camargo/Ag. Brasil

Eliseu Padilha, ministro da Casa Civil

Último integrante do "primeiro escalão" do grupo do PMDB investigado pela PF, o ex-deputado federal foi ministro da Aviação Civil em 2015, ainda no governo Dilma Rousseff, e comanda a Casa Civil desde que Temer chegou ao poder, em maio de 2016.
O nome de Padilha foi citado nas delações assinadas por executivos da Odebrecht como "suspeito de cobrar propinas em nome do PMDB e do presidente Michel Temer para financiar campanhas eleitorais".
Segundo a PF, baseando-se nas delações da Odebrecht e do operador Lúcio Funaro, o ministro teria recebido R$ 4 milhões em dois pagamentos. Contra ele pesa a suspeita de corrupção passiva, lavagem de dinheiro e caixa 2.
Padilha afirmou que só irá se pronunciar "quando e se houver acusação formal contra ele que mereça resposta".
Rocha Loures é apontado como um dos homens próximos a Temer | Foto: Divulgação

Rodrigo Rocha Loures, ex-assessor de Temer

Listado como o primeiro integrante do "segundo escalão" da organização criminosa, Rocha Loures foi assessor de Temer quando ele ainda ocupava a Vice-Presidência e é suspeito de atuar como preposto do presidente.
Foi filmado após receber de um executivo do grupo J&F - controlador da JBS -, dos irmãos Joesley e Wesley Batista, uma mala com R$ 500 mil em São Paulo. 
Foi preso em junho e colocado em prisão domiciliar. No primeiro interrogatório à Polícia Federal, Rocha Loures preferiu ficar em silêncio. 
Após ser preso na Operação Panatenaico, ex-vice-governador do DF Tadeu Filippelli chega à superintendência da Polícia Federal: Tadeu Filippelli foi exonerado do cargo de assessor especial da Presidência em maio, depois de ser detido pela PF | Foto: José Cruz/Ag. Brasil

Tadeu Filippelli, ex-assessor de Temer

Ex-presidente do PMDB no Distrito Federal e ex-vice-governador, Filippelli teve o nome listado no organograma, mas seu papel não foi detalhado pela PF.
No relatório, os investigadores afirmam ser possível que vários assessores de Temer "tenham se envolvido em diversas ações suspeitas, possíveis crimes".
"Nessa condição aparece Tadeu Filippelli, figura conhecida do PMDB/DF", escreve a PF, assinalando que o peemedebista foi exonerado do cargo de assessor especial da Presidência em maio, após ser preso pela Polícia Federal, na Operação Panatenaico - que apura suposto esquema de corrupção e suspeita de superfaturamento na construção do Estádio Nacional Mané Garrincha, em Brasília. A prisão revogada no final de maio. 

Sandro Mabel, ex-assessor de Temer

Ex-deputado federal, Mabel também foi assessor especial do presidente.
Segundo a PF, seria uma pessoa de "confiança de Eduardo Cunha para propor emendas e medidas provisórias". Há suspeitas de que ele tenha beneficiado uma construtora e recebido pagamentos indevidos.
Antonio Andrade foi Ministro da Agricultura | Foto: Wellington Pedro/Imprensa MG

Antonio Andrade, vice-governador de Minas Gerais

Atual vice-governador de Minas, foi ministro da Agricultura no governo Dilma Rousseff, cargo que ocupou, segundo a PF, por indicação direta de Temer.
Andrade também comandou a bancada do PMDB mineiro na Câmara quando atuava como deputado federal.
Para a PF, ele tem "posição de destaque nos fatos investigados". É suspeito de ter participado da edição de atos no Ministério da Agricultura para favorecer a JBS que, em troca, teria pago R$ 7 milhões a integrantes do grupo do PMDB investigado pela PF. 

José Yunes, ex-assessor de Temer

A PF diz não ter identificado atividade partidária do suspeito, mas o identifica como amigo de longa data de Temer, que o nomeou como assessor especial.
Nas palavras dos investigadores, Yunes "foi arrastado pelo maremoto provocado pelas delações da Odebrecht". O escritório dele foi um dos endereços indicados para a entrega de R$ 10 milhões que a empreiteira diz ter dado ao PMDB.
Depois de ter o nome citado, ele foi exonerado do cargo no governo. 

Lúcio Vieira Lima, deputado-federal

Irmão de Geddel, Vieira Lima é suspeito de atuar no Congresso para favorecer interesses de grandes construtoras em troca de doações de campanha.

PF prende empresário Wesley Batista, do grupo JBS

Polícia Federal prendeu na manhã desta quarta-feira o empresário Wesley Batista, um dos donos da JBS. A ordem foi expedida pela Justiça Federal de São Paulo.
Joesley Batista – já detido desde o último domingo por decisão do ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF) – também é alvo da ação, com mais um mandado de prisão.
As prisões decorrem de investigação aberta pela PF em São Paulo para apurar se os donos da JBS se aproveitaram da própria delação premiada, negociada com a Procuradoria-Geral da República, para ganhar dinheiro no mercado financeiro.
No pedido de prisão, os investigadores sustentam haver fartas provas de que Joesley e Wesley, sabendo do potencial explosivo do acordo de delação e de seus efeitos no mercado, agiram pessoalmente negociando ações do grupo e contratos futuros de dólares.
Também são investigados na operação deflagrada nesta manhã o diretor jurídico da JBS, Francisco de Assis e Silva, a advogada Fernanda Tórtima, contratada pela empresa, e o ex-procurador da República Marcello Miller, que integrou o grupo de trabalho montado para auxiliar o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, na Lava-Jato.
Durante a apuração sobre uso de informação privilegiada pelos donos da JBS, os policiais colheram indícios de que os irmãos Batista cooptaram Marcello Miller quando ele ainda integrava o Ministério Público Federal. Pela parceria, Miller e os irmãos Joesley e Wesley Batista são investigados pelo crime de corrupção.
A operação foi batizada de Tendão de Aquiles.

Defesa

O advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, emitiu uma nota na qual diz que os irmãos Batista poderiam ter feito um anexo no acordo de colaboração premiada firmado com o MPF sobre a investigação que resultou na prisão de Wesley nesta quarta-feira, mas que não o fez porque “não há crime algum”.
Veja a íntegra da nota:
“Os irmãos Wesley e Joesley Batista fizeram delação e entregaram centenas de documentos, assumiram inúmeros crimes e tiveram, na análise do procurador-Geral da República, o benefício da imunidade total, pois a efetividade da delação foi considerada absolutamente perfeita.
É claro que poderiam ter feito um anexo na delação sobre esta investigação que resultou na prisão, sobre suposto uso de informação privilegiada. Se existisse qualquer irregularidade, eles teriam acrescentado um anexo, o que levaria à imunidade completa também sobre este fato. Parece óbvio que não fizeram porque não há crime algum. Poderiam ter evitado a investigação e estariam hoje sob o manto da imunidade. Mas confiaram no estado; afinal de contas, estavam tratando com o Ministério Público Federal.
A prisão surpreende e causa indignação, pois é absolutamente desnecessária. Eles sempre se colocaram à disposição do MPF e do Judiciário. Se existisse qualquer hipótese de ” insider trading”, eles certamente teriam incluído os fatos na delação para obterem a imunidade. A defesa segue confiando no Judiciário.”

Ex-governador Anthony Garotinho é preso no RJ

O ex-governador do Rio de Janeiro Anthony Garotinho (PR) foi preso na manhã desta quarta-feira. Ele estava apresentando o programa que mantém na Rádio Tupi, sediada em São Cristóvão, na Zona Norte do Rio, quando agentes da Polícia Federal (PF) apareceram para cumprir um mandado de prisão domiciliar.
Segundo o jornal O Globo, a decisão prevê o uso de tornozeleira eletrônica, proíbe a utilização de telefones celulares e restringe o contato pessoal a advogados e familiares. Garotinho será levado para cumprir a determinação em Campo dos Goytacazes, onde ele possui uma casa no bairro da Lapa.
A Justiça diz que o grupo chefiado por Garotinho não cessou a prática de crimes durante o período em que o ex-governador esteve em liberdade. A decisão é do juiz Ralph Manhães, da 100º Zona Eleitoral de Campos dos Goytacazes.
O ex-governador é investigado na Operação Chequinho, que apura a suspeita de compra de votos em Campos dos Goytacazes durante as eleições do ano passado. O nome da operação é uma referência ao programa Cheque Cidadão, que teria sido usado como moeda de troca para comprar votos em candidatos à Câmara Municipal. O benefício, que prevê o pagamento de 200 reais a famílias carentes, foi suspenso pela Justiça em setembro de 2016.
Garotinho foi preso na Chequinho em 16 de novembro. O ex-governador passou a cumprir prisão domiciliar após receber autorização para realizar uma cirurgia cardíaca. Em novembro, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) revogou a prisão de Garotinho mediante o pagamento de 88 mil reais.
Procurado, o PR não se manifestou sobre a prisão do ex-governador. A defesa de Garotinho ainda não foi localizada.

Surpresa

O locutor Cristiano Santos foi chamado para substituir Garotinho no programa de Rádio Tupi. Ao anunciar a mudança aos ouvintes, Santos afirmou que o ex-governador teve um problema de saúde e precisou deixar o estúdio. Ele não mencionou a prisão em nenhum momento.
“Nosso Garotinho até tentou, você viu, até tentou fazer o programa hoje, mas a voz foi embora, e a orientação médica é que ele pare de falar. Agora ele tem que se cuidar. O marido que pertence à Rosinha vai se cuidar para amanhã estar de volta, se Deus quiser, quando estiver bom. Já falei com ele, volta quando estiver bom. Eu cuido aqui do programa com muito carinho”, disse Santos.
Ouça abaixo o momento em que Santos anuncia a saída de Garotinho:
https://abrilveja.files.wordpress.com/2017/09/audio-garotinho-radio-cortado.mp3

Histórico

Garotinho, que já foi candidato à Presidência da República em 2002, tem um extenso currículo de escândalos. Entre eles, um dos mais graves foi a suspeita de ter usado seu período no Palácio Guanabara — e também o de sua mulher, Rosinha — para acobertar as ações de um grupo de policiais que, encastelados na chefia da Polícia Civil, barbarizou o Rio de Janeiro cometendo ilícitos variados.
A lista inclui ainda facilitação de contrabando, formação de quadrilha, proteção a contraventores, cobrança para nomeação de delegados, lavagem de dinheiro, corrupção ativa e passiva. Em 2010, Garotinho chegou a ser condenado a dois e meio de prisão pela Justiça Federal do Rio por formação de quadrilha. Na mesma sentença, o ex-chefe da Polícia Civil na sua gestão, Álvaro Lins, foi condenado a 28 anos de reclusão por corrupção passiva, lavagem de bens e formação de quadrilha.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Cabral diz que Paes, Nuzman e ministro estiveram com Lamine Diack

O ex-governador Sérgio Cabral afirmou ontem em depoimento ao Ministério Público Federal que se encontrou uma vez com o dirigente senegalês Lamine Diack, pai de Papa Diack, acusado de receber propina e favorecer o Rio de Janeiro na disputa para sediar a Olimpíada de 2016. Cabral negou qualquer negociação de suborno na reunião, mas fez questão de lembrar que participaram da conversa o ex-prefeito Eduardo Paes, o ex-ministro dos Esportes, Orlando Silva, e o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, Carlos Arthur Nuzman.
Esta semana, a operação Unfairplay desencadeada pela Polícia Federal revelou que Papa Diack recebeu depósitos no exterior no valor de 2 milhões de dólares feitos pelo empresário Arthur Soares de Menezes Filho, que embolsou 3 bilhões de reais em contratos na era Cabral. Arthur é considerado foragido pelas autoridades brasileiras. Para os procuradores, Cabral disse ser amigo pessoal do empresário, mais conhecido como “rei Arthur”, mas que não faz ideia de porque houve a operação financeira entre ele e Papa Diack. Perguntado se conhecia Lamine Diack, Cabral negou a informação em duas oportunidades.
No depoimento, o ex-governador deixou claro que queria passar a mensagem de não ter feito nenhum movimento pela candidatura do Rio sem o consentimento de Paes, Nuzman e Orlando Silva. Ele disse que teve encontros ao lado do trio com todas as autoridades que votariam na eleição de Copenhague em que participaram, além do Rio, Madri, Chicago e Tóquio. Além disso, lembrou da vez em que o quarteto apresentou a candidatura para o Comitê Olímpico Internacional em 2008.
Ao MPF ontem, Cabral adotou a mesma estratégia dos últimos depoimentos dados ao juiz Marcelo Bretas: negar todas as acusações. Disse que todos os apoios financeiros para a candidatura do Rio foram oficiais, dados principalmente por Bradesco, Embratel e o empresário Eike Batista. Também voltou a questionar os procuradores pela acusação de ser dono de 100 milhões de dólares no exterior em contas no nome do doleiro Renato Chebar. Perguntou a eles, assim como já fez com Bretas, se não era estranho deixar tanto dinheiro com outra pessoa sem qualquer assinatura ou contrato.

Obras de arte, Fusca e conta na Suíça: os bastidores da polícia na casa de Nuzman

Antes de se dirigir à sede da Polícia Federal, Carlos Arthur Nuzman, 75 anos, pediu para fazer a barba e tomar banho. Ele havia sido acordado pelos policiais federais e procuradores da República na sua casa de três andares no Alto Leblon, pedaço de luxo restrito na zona sul carioca. Quem recebeu as equipes foi um mordomo. Ambos muito educados, não pareciam assustados com a presença dos homens da Lava Jato no seu quintal. Naquele dia, pouco menos de oito anos após comemorar com champanhe a vitória da candidatura do Rio como sede para a Olimpíada de 2016, o dirigente esportivo de maior posição no país acordara barbudo e fora dormir sem os passaportes e a liberdade de ir e vir. 
Ao todo, foram encontrados sete passaportes nas gavetas de Nuzman. Três exclusivos a integrantes de corpo diplomático, três de cidadãos comuns brasileiros e um expedido pelo governo russo, obtido em troca da venda do voto do Brasil na escolha da Rússia como sede dos Jogos de Inverno de 2014, segundo depoimentos prestados ao Ministério Público da França. 
Foi no quarto de Nuzman, num dos dois closets, que os policiais encontraram parte dos R$ 480 mil em espécie. O restante estava num escritório da residência. O outro closet do dormitório estava completamente vazio. Era onde a ex-mulher de Nuzman, Márcia Peltier, guardava suas roupas e sapatos até pouco tempo. Também no quarto, uma cômoda completamente vazia deixava a recente separação à mostra. 
Vinte e três itens classificados preliminarmente como "obra de arte" foram listados. Entre eles quadros do casal. O blog não conseguiu saber se uma poltrona usada pelo papa João Paulo II, uma das atrações da sala do dirigente, está entre os itens apreendidos por determinação da Justiça. Aparelhos celulares, pen-drives e cadernos de anotações pessoais também foram retidos. 
Conta na Suíça 
Os 22 anos do dirigente como presidente do Comitê Olímpico Brasileiro são representados numa das salas da ampla casa por 13 tochas olímpicas de diferentes países, dispostas na parede. Entre os adornos, apenas um não está afixado, justamente a tocha da Olimpíada comandada por Nuzman, a Rio 2016. Numa das gavetas vasculhadas pelos policiais, um orçamento para a colocação do troféu olímpico foi encontrado: uma obra incompleta. 
Na garagem da propriedade, foram listados dois jeeps Pajero e um Fusca 1200, de colecionador. Todos listados como "apreendidos".  
Ainda no quarto, os policiais encontraram um pequeno envelope e um cartão. Nele, as coordenadas para o restante da história financeira do dirigente: os dados de uma conta na Suíça. 
Durante todo o período em que os investigadores estiveram na residência, Nuzman foi cortês e manteve o equilíbrio. Ao seu lado, o amigo com quem sabia que poderia contar e com quem "pularia do precipício", como disse certa vez à revista Piauí, Sérgio Mazzillo. 
Advogado e amigo pessoal do cartola olímpico, dono de um escritório que recebeu R$ 18,8 milhões do Comitê Organizador Rio 2016 ((LINK acima)), como revelou o blog em 2015, foi quem tentou explicar a ação Unfair Play aos jornalistas: 
"Espetáculo midiático", disse, negando as acusações de compra de voto. 
Ao chegar à Policia Federal, onde se esperava que apresentasse argumentos para contrapor as acusações feitas pelas investigações, Nuzman se negou a responder qualquer pergunta. 
Espera-se que tente reaver na Justiça seus passaportes. O primeiro objetivo, comparecer à reunião do Comitê Olímpico Internacional (COI) em Lima, no Peru, na próxima semana. O movimento olímpico não para. 

Fachin tira de Moro investigação sobre Fernando Haddad

O ministro Edson Fachin, relator da Operação Lava Jato no Supremo Tribunal Federal (STF), decidiu transferir para a Justiça Federal em São Paulo o inquérito que investiga doações da Odebrecht para a campanha de Fernando Haddad (PT) à Prefeitura de São Paulo em 2012. Tomada nesta quarta-feira, a decisão é uma reconsideração de despacho anterior, de 10 de maio, que havia determinado o envio do caso à Justiça do Paraná, sob os cuidados do juiz Sergio Moro.
A argumentação da defesa era de que as acusações contra Haddad feitas nas delações premiadas do grupo Odebrecht e de João SantanaMônica Moura e André Santana não tem relação com a Petrobras e, portanto, com os fatos investigados pela Lava Jato em Curitiba. Segundo os relatos, a empreiteira fez doações não declaradas à campanha que elegeu Haddad em 2012 através de repasses aos marqueteiros. Santana e Mônica alegam, ainda, que outra parte dos débitos foi paga por uma empresa ligada a Eike Batista, também via caixa 2.
Ao aceitar o agravo regimental, uma espécie de recurso contra a decisão anterior, o ministro Edson Fachin determinou que o inquérito siga, agora, para São Paulo, onde os fatos supostamente teriam ocorrido. Em junho, em outro inquérito que corre na capital paulista, a Polícia Federal deflagrou a Operação Cifra Oculta, que investigava mais um relato de recursos omitidos da prestação de contas na eleição do ex-prefeito, desta vez da UTC, que afirmava ter pago dívidas de campanha, com gráficas, no valor de 2,6 milhões de reais.
Na época, procurado por VEJA, Haddad se defendeu das acusações de Ricardo Pessoa, o dono da UTC. Por meio de sua assessoria, afirmou que a gráfica que supostamente teria recebido dinheiro da empreiteira “prestou apenas pequenos serviços devidamente pagos pela campanha e registrados no TRE”. Ele também alegou ter contrariado o interesse de Pessoa na sua gestão, em especial ao cancelar as obras de um túnel na avenida Roberto Marinho, na zona sul de São Paulo.

Dez pontos do depoimento de Palocci que atingem Lula

Preso na Operação Lava Jato desde setembro de 2016, o ex-ministro da Fazenda e da Casa Civil Antonio Palocci falou como réu ao juiz federal Sergio Moro nesta quarta-feira, no processo que tem o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva como acusado de receber 13 milhões de reais em propina da Odebrecht por meio de um apartamento em São Bernardo do Campo (SP) e um imóvel que serviria como sede ao Instituto Lula.
Em cerca de duas horas diante de Moro, Palocci, que negocia um acordo de delação premiada com o Ministério Público Federal, incriminou Lula e afirmou o petista tinha um “pacto de sangue” com a empreiteira, que teria lhe rendido um “pacote de propinas”.
Veja abaixo dez pontos do depoimento do ex-ministro que atingem o ex-presidente:

‘Relação movida a propina’

Ao responder a primeira pergunta formulada pelo juiz federal Sergio Moro, Antonio Palocci reconheceu ao magistrado que a denúncia do Ministério Público Federal “procede”, disse ter participado das tratativas de vantagens indevidas nos governos dos ex-presidentes Lula e Dilma Rousseff e afirmou que a relação entre os governos petistas e a empreiteira era “bastante intensa, movida a vantagens dirigidas à empresa e propinas pagas pela Odebrecht para agentes públicos em forma de doação de campanha, em forma de benefícios pessoais, em forma de caixa um e caixa dois”.

‘Pacto de sangue’

Palocci classificou como “pacto de sangue” o acordo entre o empresário Emílio Odebrecht e Lula, que teria envolvido um “pacote de propinas” ao petista. O acerto teria sido firmado em 2010, no final do mandato do ex-presidente no Palácio do Planalto, em função da “tensão” da Odebrecht com a posse de Dilma Rousseff. A presidente eleita já se posicionara contra interesses da empresa na construção de hidrelétricas no Rio Madeira. O ex-ministro disse ter ficado “chocado” com a oferta do empresário ao ex-presidente, relatada a ele pelo próprio Lula em uma conversa no Palácio da Alvorada.

R$ 300 milhões à disposição

No encontro na residência oficial da presidência da República em Brasília, segundo Palocci, o Lula disse a ele que Emílio Odebrecht lhe prometera, como um dos itens do “pacote”, deixar à sua disposição 300 milhões de reais para “atividades políticas” nos anos seguintes ao fim do mandato presidencial. O ex-ministro disse ter sido encarregado pelo petista de tratar sobre os recursos com Marcelo Odebrecht, que propôs a criação de uma planilha para manejo do dinheiro. Em uma das primeiras conversas com o empreiteiro, no entanto, Marcelo alegou engano de seu pai e reduziu o valor a 150 milhões de reais. O compromisso voltou a ser de 300 milhões de reais depois de reunião entre Emílio Odebrecht, Lula e Dilma. “O presidente Lula me chama de novo e fala: ‘olha, o Emílio veio, tivemos uma ótima reunião, ele confirmou os 300 milhões e falou que pode ser mais se necessário”, disse Palocci a Moro.

Obra do sítio concluída

Como parte do “pacote de propinas” da Odebrecht a Lula, citado por Antonio Palocci a Sergio Moro, o empresário Emílio Odebrecht teria se comprometido a participar das obras do sítio Santa Bárbara, em Atibaia (SP), usado pela família do ex-presidente. “O seu Emílio apresentou ao presidente o sítio para uso da família, que já estava fazendo a reforma, fase final. Ele disse que o sítio já estava pronto”, relatou o ex-ministro.
Lula é réu em uma ação penal na Justiça Federal do Paraná, sob responsabilidade do juiz Sergio Moro, que apura a posse da propriedade rural no interior paulista. Segundo a denúncia da força-tarefa da Lava Jato, as empreiteiras Odebrecht e OAS e o pecuarista José Carlos Bumlai executaram as obras no sítio.

Palestras por R$ 200.000

O “pacote de propinas” prometido por Emílio Odebrecht a Lula também envolvia, segundo Antonio Palocci, “várias palestras” do ex-presidente, “pagas a 200.000 reais, fora impostos, combinadas com a Odebrecht para o próximo ano”. Uma das ações penais que têm Lula entre os réus, baseada na Operação Janus, apura pagamentos milionários pela empreiteira ao petista em palestras, além de supostos benefícios à Odebrecht em financiamentos do BNDES a obras na América Latina e na África.

Uma sede para o Instituto Lula

Antonio Palocci declarou a Sergio Moro ter sido contrário à compra, pela Odebrecht, de um prédio que serviria como sede do Instituto Lula, outro item do “pacote de propinas” oferecido pela Odebrecht ao ex-presidente. Apesar de sua posição, diz Palocci, a aquisição teria sido encaminhada pelo pecuarista José Carlos Bumlai e o advogado Roberto Teixeira, compadre de Lula. A DAG Construtora, empresa de Demerval Gusmão, amigo de Marcelo Odebrecht, pagou os 12,4 milhões de reais pelo imóvel, que, por fim, acabou não sendo descartado.
“Desculpa, doutor, eu não estava de santo na história não. O nosso ilícito com a Odebrecht já estava muito grande naquele momento, eu achei que essa compra não precisava ser um ilícito, não precisava ser um ilícito travestido de lícito”, disse o ex-ministro a Moro.

Reunião com Marisa Letícia

A desistência do imóvel teria sido concretizada após o aval da ex-primeira-dama Maria Letícia Lula da Silva, falecida em fevereiro deste ano. Convencido por Antonio Palocci de que o imóvel poderia render problemas e era um “convite a uma investigação”, Lula teria delegado ao ex-ministro a tarefa de persuadir sua mulher de que o prédio era “inadequado”. “’Vá lá e me ajude a convencer a dona Marisa de que esse prédio é inadequado, a compra desse prédio foi inadequada. Porque se eu fizer isso ela vai ficar brava comigo, porque ela fala que eu não cuido disso. Se você fizer ela vai entender melhor porque ela gosta de você, ela te entende’”, apelou o petista, segundo Palocci.

R$ 4 milhões ao Instituto Lula

Ainda sobre o Instituto Lula, Antonio Palocci relatou ao juiz da Lava Jato ter intercedido junto a Marcelo Odebrecht para cobrir um “buraco” de 4 milhões de reais nas contas da instituição. Paulo Okamotto, presidente do instituto, teria pedido ao ex-ministro a articulação. “O Paulo Okamotto me pediu para que eu ajudasse ele a cobrir o final de ano do instituto, que faltava recurso. Acho que meio para o final de 2013, começo de 2014. Ele tinha um buraco nas contas, me pediu para arrumar recursos. Eu fui ao Marcelo Odebrecht (…) o Marcelo concordou em dar, falou que tinha disponibilidade. Pedi ao Brani [assessor de Palocci] para transmitir ao Paulo Okamotto que seriam dados os 4 milhões que ele havia pedido”.

Pré-sal reforça petrolão

Antonio Palocci relatou a Moro que em 2007, antes da descoberta das reservas de petróleo e após a reeleição de Lula, o petista havia manifestado preocupação com a corrupção na Petrobras, especialmente irregularidades nas diretorias de Serviços e de Abastecimento, feudos de PT e PP na estatal. “Mas logo após veio o pré-sal e pôs o governo em uma atitude muito frenética em relação à Petrobras. Esses assuntos de ilícitos e de diretores ficaram em terceiro plano, as coisas continuaram correndo do jeito que era”, contou o ex-ministro. De acordo com Palocci, os investimentos atraídos pela descoberta de petróleo não só frearam a intenção do ex-presidente em agir contra o petrolão, como levaram o petista a incentivar o esquema: “ele até chegou a encomendar que os diretores a partir daí fizessem mais reservas partidárias”.

Obstrução de Justiça

Por duas vezes em seu depoimento, o ex-ministro falou ao magistrado sobre sua atuação para atrapalhar as investigações da Operação Lava Jato. Em uma delas, já no final da oitiva, citou Lula como um de seus companheiros na empreitada. “Em algumas oportunidades, eu me reuni com o ex-presidente Lula e com outras pessoas no sentido de buscar criar obstáculos à Lava Jato”, introduziu Palocci. Ele afirmou ao juiz federal que poderia falar mais sobre o assunto, mas Moro entendeu que não era apropriado tratar dele neste processo, que apura corrupção e lavagem de dinheiro.