quarta-feira, 20 de março de 2019

Kajuru: “Lava Toga vai abrir a caixa-preta dos tribunais”

Jorge Kajuru discursa na tribuna do Senado Federal.© Roque de Sa (Agência Senado) Jorge Kajuru discursa na tribuna do Senado Federal.
Sua estreia no Senado Federal foi acachapante. Detentor de mais de 1,5 milhão de votos em Goiás, Jorge Kajuru, 58, roubou a cena ao revelar que, aos 11 anos, dedurou à mãe que o pai tinha uma amante. A intenção era defender o voto aberto na eleição à presidência da Casa, marcada pela sessão inaugural que terminou em bate-boca e troca de acusações entre parlamentares. “Foi uma noite sombria”, lembra Kajuru. Durante seu primeiro pronunciamento no plenário, ele ainda citou Ruy Barbosa: “Pouco se me dá que claudique a onagra, o que me apraz é acicatá-la”. Assim que encerra a fala, o ex-presidente e colega de Senado, Fernando Collor, se aproxima e pergunta o que ele quis dizer com a frase. “Ninguém entendeu. Tive que explicar: ‘Gente, a mim pouco importa que a mula manque, o que eu quero é rosetar’. Quero um pouco de felicidade, de bom humor.”
O estilo verborrágico que o notabilizou como apresentador de programas esportivos na televisão é uma marca que Kajuru estende à política. O que, por vezes, o faz bater de frente: a última dividida foi com o ministro Gilmar Mendes, a quem acusa de vender sentenças a políticos do PSDB — o ministro pediu ao STF que tome providências. Frasista incontrolável, ao falar sobre sua trajetória como jornalista, os planos no Senado e os vespeiros que pretende chacoalhar, ele dispara uma série de bordões que resumem a personalidade afeita aos assuntos mais polêmicos.
“A vida não é só sexo.”
“Sozinho, você não serve nem pra ser corno.”
“Que culpa eu tenho de ter cultura?”
“A ignorância é a maior multinacional do mundo.”
“O Brasil é pentacampeão mundial de hipocrisia.”
“Não sou dono da verdade. A verdade é dona de mim.”
“Merdas cagadas não voltam ao local de origem.”
Apesar de eruptivo, Kajuru rechaça o rótulo de personagem folclórico. “Sou um cara bem humorado, culto e poético. Eu li mais do que vivi: Dostoiévski, Trótski, Homero, Machado de Assis, Neruda, Clarice Lispector, Osho... Eu sei exatamente o meu tamanho. Quem me chama de folclórico é ignorante.” Se a impressão inicial havia sido negativa, o senador estreante agora se diz surpreso com o nível dos colegas em Brasília. “Comecei a ver inteligência, equilíbrio, tom moderador. Os novos senadores são absolutamente preparados. Sou respeitado pelos meus colegas e os respeito. Para discordar, não preciso desqualificar.”
Por outro lado, os hábitos espartanos de Kajuru têm chamado a atenção de seus pares. De segunda à sexta, ele chega às 6h50 ao Senado. Participa de todas as sessões e, eventualmente, também dá expediente aos sábados e domingos. No almoço, come um PF a 12 reais. “Minha dieta hoje é bem diferente da época em que eu pesava 120 quilos.” De seu gabinete, transmite a entrevista por telefone ao EL PAÍS em seus 30 perfis de rede social. Interrompe a conversa para repreender um funcionário que cochilava numa cadeira. “Professor Mulatinho? Tá dormindo? Eu aqui enchendo sua bola e vossa excelência dormindo na minha frente.” O auxiliar parlamentar em questão ajuda a compor os discursos e projetos de Kajuru, que se orgulha de ter três gurus, ex-senadores, à disposição de forma voluntária. Cristovam Buarque (“um Darcy Ribeiro da educação”), Pedro Simon (“não subo na tribuna sem antes falar com ele por 20 minutos”) e Heloísa Helena (“me auxilia na área da saúde”). Kajuru tem 15 assessores em Brasília e outros 10 no gabinete de Goiânia, menos da metade do número máximo de funcionários permitidos aos senadores. “Não precisa ter 55 assessores”, afirma. “Mas o que acontece na Suécia, onde parlamentar não tem assessor, é um exagero. Uma boa equipe é essencial para um bom mandato. Ninguém faz nada sozinho. Nosso Criador tinha quantos apóstolos?”.
Ele promete revirar “várias caixas-pretas” no Congresso Nacional. Na semana passada, Kajuru foi o primeiro a assinar o requerimento proposto por Alessandro Vieira (PPS-SE) para abertura da CPI da Lava Toga, que quer investigar supostos excessos cometidos em cortes superiores, como o Supremo Tribunal Federal (STF). “Existe muita coisa errada, muita sentença comprada... A Lava Toga vai abrir a caixa-preta dos tribunais. Cada ministro do STF tem mais de 200 funcionários e até auxílio-funeral. Isso é um absurdo”, diz o senador de Goiás, observando que as regalias do Legislativo também estão em sua mira. “Minha luta não é contra o Supremo, mas contra todo tipo de privilégio criminoso da máquina pública, incluindo a Câmara e o Senado.” Juntas, as duas casas consomem anualmente cerca de 10 bilhões de reais.
Kajuru afirma que tem feito sua parte para frear a sangria nos cofres públicos. Doa metade de seu salário (33.700 reais) a instituições sociais como o Cevam (Centro de Valorização da Mulher) ou pessoas físicas em dificuldade financeira, a exemplo do ex-jogador do Atlético-GO, Agnaldo, que foi presenteado com pernas mecânicas. “Não devolvo dinheiro para o ralo da corrupção”, justifica. Dispensa carros oficiais, passagens aéreas e auxílio-moradia. Em Brasília, alugou um flat a cinco minutos do Congresso e banca do próprio bolso o aluguel de 2.500 reais. “Quem achar que é demagogia, que também o faça. Que outros senadores abram mão de 50% do que custam.”

Do punho cerrado ao apoio a Bolsonaro

“Se a classe política abrir mão de privilégios e metade do salário, não precisa mexer na Previdência.” Assim, Jorge Kajuru diz acreditar que “cortes na carne” dos poderes Executivo e Legislativo podem representar “uma economia na casa de um trilhão”, suficiente para cobrir o déficit previdenciário estimado em 290 bilhões de reais. “Nosso salário é uma fortuna. Professor não chega nem perto de ganhar metade do que ganhamos.” A proposta de ajuste da Previdência apresentada pelo Governo de Jair Bolsonaro não lhe agrada. “A reforma é um tapa na cara de idosos e pessoas especiais. Ela protege caloteiros e prejudica a camada mais pobre da população, que só vai se aposentar se for como Raul Seixas, nascido há dez mil anos atrás.”
Por “caloteiros”, o senador entende empresas que devem à Previdência. Segundo seus cálculos, somente os cinco maiores bancos do país acumulam dívidas superiores a 2 bilhões de reais. Ele argumenta que o Governo deveria ter como prioridades “as reformas tributária, política e dos Estados, que estão endividados”. Embora se diga amigo do ministro da Economia, Paulo Guedes, descarta votar a favor da proposta governista caso não haja mudanças nas idades mínimas sugeridas para aposentadoria. “Não sou contra a reforma da Previdência, mas ela pode esperar. O maior crime do Brasil é a renúncia fiscal. Se Bolsonaro quiser pagar toda a dívida do Brasil, é só usar a riqueza do nióbio.”
Kajuru ficou cego de um olho por causa do diabetes.© Edilson Rodrigues (Agência Senado) Kajuru ficou cego de um olho por causa do diabetes.
Na eleição, Kajuru fez campanha pelo atual presidente em Goiás. “Banquei adesivo e tudo, mas o Bolsonaro foi sacana comigo. Apoiou outro candidato [Wilder Morais, do DEM].” A primeira vez que conversaram, entretanto, foi em janeiro deste ano. O senador jantava na casa do governador goiano Ronaldo Caiado, acompanhado do colega Davi Alcolumbre (DEM-AP), que barganhava votos pela presidência do Senado. Foi Alcolumbre quem lhe passou uma ligação no celular com Bolsonaro do outro lado da linha. Chamado de louco pelo presidente, em tom de brincadeira, devolveu na mesma moeda. “É um prazer que me chamem de louco. Loucura é a única coisa que torna a vida suportável”, diz, em alusão a Erasmo de Roterdã. Apoiado pelo Governo, Alcolumbre acabou desbancando Renan Calheiros na disputa do Senado. Kajuru votou nele, mas nega ter cedido ao cortejo do presidente. “O voto não foi meu. Foi da nação brasileira.” Antes da votação, ele abriu uma enquete nas redes sociais, determinando sua escolha pela da maioria dos seguidores, prática que deve se repetir daqui para frente. “Mas não vou fazer isso em projetos estratégicos, como a reforma da Previdência, para não correr o risco de fanáticos bolsonaristas invadirem minhas redes.”
Filiado ao PSB depois de seu antigo partido, o PRP, se fundir com o Patriota, Kajuru faz questão de ressaltar que rejeita posições ideológicas. “Não sou esquerda nem direita. Não sou oposição. Eu tenho posição.” Ele explica que o gesto do punho cerrado, reproduzido por ele em várias poses para fotos oficiais, é uma homenagem a dois ex-jogadores de futebol. “Primeiro, ao Sócrates, que foi meu melhor amigo, um ser humano que me fez acreditar na raça humana. E também ao Reinaldo, com quem convivi em Belo Horizonte quando comecei a carreira no rádio. O braço erguido é o símbolo de um herói da resistência, de um homem que não tem medo e não recua nem pra tomar impulso. Este, sou eu.”

Depressão, demissão e desafetos

Por causa do diabetes, Jorge Kajuru perdeu a visão do olho direito e só enxerga 6% da capacidade do esquerdo. Perdeu também o prazer de ler livros impressos e 70 quilos depois de passar por uma agressiva cirurgia bariátrica. Outra sequela da enfermidade foi a impotência sexual, que ele resolveu ao implantar uma prótese peniana. Antes, havia entrado em depressão e tentado suicídio. Por isso, o enfrentamento à doença é uma de suas grandes causas na política. No ano passado, ele inaugurou o Centro de Diabéticos em Goiânia, que leva o nome de sua mãe, dona Zezé, morta pelo diabetes. Como senador, pretende expandir unidades de atendimento pelo Brasil. “Olha só, consegui recursos para o Centro na embaixada do Reino Unido. Tem muito dinheiro lá para apoiar bons projetos, mas os senadores não vão buscar.”
Ao longo de 40 anos de carreira na TV, passou pelas principais emissoras do país, menos pela Rede Globo. Em 2003, a convite de Galvão Bueno, recebeu proposta de 18.000 reais por mês para integrar o time global. No fim das contas, foi para a Band, com salário de 100.000 reais. Entretanto, de acordo com Kajuru, o aspecto financeiro não foi o único a pesar em sua decisão. “Disseram que lá eu não poderia falar algumas coisas. Pelo menos, foram honestos comigo.” Acabaria demitido da Band no ano seguinte, depois de criticar o então governador de Minas Gerais, Aécio Neves, antes de um jogo entre Brasil e Argentina, no Mineirão. “Em vez de liberarem a entrada para cadeirantes, o portão principal do estádio serviu para recepcionar os convidados VIPs do Aécio. Não o xinguei em momento algum. Apenas constatei que aquele jogo não era para as pessoas mais humildes.”
Kajuru foi cortado no meio do programa e, em seguida, mandado embora. Assim como se gaba de ter sido “o primeiro vereador [em Goiânia] a virar senador depois de um ano e meio de mandato”, ostenta o título de “primeiro jornalista da história a ser demitido ao vivo no Brasil”. “Para mim, foi um atestado de idoneidade”, diz o ex-apresentador, que atribui o motivo de sua demissão a um pedido do hoje deputado federal mineiro. “Nunca encontrei o Aécio. Caso eu o enxergue um dia [no Congresso], vou colocar minhas duas mãos nos bolsos.”
Combativo e crítico, ele conta ter recebido 143 processos na Justiça. “A única vez que perdi foi pra Luciana Gimenez [apresentadora da RedeTV!]. Eu disse à Sonia Abrão que a Luciana pensava menos que uma mesa. A Sonia, depois, veio me perguntar se eu estava arrependido. Pedi desculpas à mesa, a quem eu realmente ofendi.” No Congresso, Kajuru se apresenta como um conciliador, porém, comprometendo-se a não fugir dos embates na tribuna e a imprimir o mesmo ritmo alucinante das transmissões de TV em sua jornada como parlamentar. “Senador só não faz um bom mandato se for ignorante, corrupto ou preguiçoso. Basta querer trabalhar.”

quinta-feira, 7 de março de 2019

BASTIDORES: Ataques a Ernesto Araújo motivaram exoneração de embaixador

O chanceler Ernesto Araújo
Itamaraty desmente, extraoficialmente, a versão do embaixador Paulo Roberto de Almeida para suaexoneração do cargo de presidente do Instituto de Pesquisas de Relações Internacionais (Ipri), em plena segunda-feira de Carnaval. Na versão do ministério, ele “quer aparecer” e foi afastado por ter “agredido” pelas redes sociais o ministro Ernesto Araujo e a política externa do governo.
Ao publicar no Facebook uma crítica do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso à política externa, na véspera da exoneração, Almeida escreveu sobre “os descaminhos da nossa diplomacia, entregue aos eflúvios amadores de ideólogos tresloucados, como certo sofista da Virgínia, e fundamentalistas trumpistas totalmente equivocados”. E concluiu: “Já passou da hora de superar o ridículo...”
No Itamaraty, a conclusão é que a referência a “fundamentalistas trumpistas” foi uma “agressão direta” ao chanceler Araújo, que tem textos publicados enaltecendo o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, como o único capaz de salvar os valores cristãos do Ocidente e, por isso, é costumeiramente acusado por seus críticos justamente de “fundamentalista trompista”. Além disso, a cúpula do ministério considera que ele acusou a política externa do atual governo de “descaminhos” e de ser “ridícula”.
Embaixadores sediados no Itamaraty, em Brasília, consideram que as expressões “ideólogos tresloucados” e “sofista da Virgínia” foram dirigidas frontalmente contra o filósofo Olavo de Carvalho, que mora no Estado norte-americano da Virgínia e é apontado como o principal padrinho da escolha de Ernesto Araujo como chanceler. Eles, porém, disseram que isso não pesou na exoneração, o que pesou foram os “ataques ao chanceler e à hierarquia”.
O diplomata Paulo Roberto de Almeida em discurso no Senado Federal em abril de 2017 em sessão solene sobre os 100 anos de Roberto Campos; Roberto de Almeida perdeu cargo no Ipri© Roque de Sá/Agência Senado O diplomata Paulo Roberto de Almeida em discurso no Senado Federal em abril de 2017 em sessão solene sobre os 100 anos de Roberto Campos; Roberto de Almeida perdeu cargo no Ipri
Em entrevista ao Estadopublicada ontem, Almeida disse que foi exonerado por, além de ter criticado Olavo de Carvalho, ter publicado em seu blog um artigo de Fernando Henrique Cardoso e uma palestra do embaixador Rubens Ricupero contra a política externa do governo Jair Bolsonaro. O Itamaraty, porém, diz que tanto o artigo quanto a palestra são públicas e, inclusive, divulgadas no resumo diário de notícias sobre o Itamaraty. Logo, não seriam motivo para o afastamento.
Uma das críticas de Paulo Roberto de Almeida, na entrevista, foi que Ernesto Araujo impôs uma “subversão da hierarquia, uma reforma de cima para baixo que deixou muita gente perplexa”. Disse, também, que já estava esperando ser afastado. De fato, ele já tivera uma conversa na sexta-feira com o chefe de gabinete de Ernesto Araujo, ministro de carreira Pedro Wollny, justamente sobre seu próximo cargo. O post no domingo interrompeu a discussão, ele foi comunicado da exoneração na segunda-feira pelo próprio Wollny, por telefone, e ontem foi ao Itamaraty para formalizar a decisão.
Uma curiosidade: Paulo Roberto está escrevendo um livro junto com o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, sobre o ex-embaixador, ministro e senador Roberto Campos, um dos ideólogos da direita brasileira. Longe de ser considerado “de esquerda”, Almeida é um estudioso da vida e obra de Campos.
Na entrevista ao Estado, o embaixador disse que ficou “na geladeira”, ou “encostado na biblioteca”, nos anos dos ex-presidentes Luis Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff. Segundo o Itamaraty, porém, ele atuou de 2003 a 2007 como assessor especial do Núcleo de Assuntos Estratégicos do Palácio do Planalto.

Saudades do carnaval? Veja os feriados prolongados que você ainda pode curtir em 2019

São Paulo ainda tem uma agenda cheia nos dias 9 e 10 de março para quem quer curtir o pós-carnaval© Daniel Teixeira / Estadão São Paulo ainda tem uma agenda cheia nos dias 9 e 10 de março para quem quer curtir o pós-carnaval
Os brasileiros que se divertiram e pularam em vários bloquinhos pelo País mal se despediram do carnaval e já estão de olho nos próximos feriados. É melhor não se animar muito: quatro deles vão cair no fim de semana e o número de emendas neste ano é menor do que em 2018.
Veja abaixo a lista de dias de descanso que ainda estão por vir (feriados estaduais e municipais não estão mencionados).

Feriados nacionais

• 19 de abril: Sexta-feira Santa (sexta-feira)
• 21 de abril: Páscoa / Tiradentes (domingo)
• 1.º de maio: Dia do Trabalho (quarta-feira)
• 7 de setembro: Independência do Brasil (sábado)
• 12 de outubro: Nossa Senhora Aparecida (sábado)
• 2 de novembro: Finados (sábado)
• 15 de novembro: Proclamação da República (sexta-feira)
• 25 de dezembro: Natal (quarta-feira)

Pontos facultativos

• 20 de junho: Corpus Christi (quinta-feira)
• 28 de outubro: Dia do Servidor Público (segunda-feira)
• 24 de dezembro: Véspera de natal (terça-feira) - após 14h
• 31 de dezembro: Véspera de ano-novo (terça-feira) - após 14h


Bolsonaro pede sacrifício dos militares para reforma da Previdência

Jair Bolsonaro falou aos fuzileiros navais sobre necessidade de reforma da Previdência.© ASSOCIATED PRESS Jair Bolsonaro falou aos fuzileiros navais sobre necessidade de reforma da Previdência.
No primeiro evento público após a crise devido a um tuíte com conteúdo pornográfico em que criticou o Carnaval, o presidente Jair Bolsonaro afirmou nesta quinta-feira (7) que os militarestambém terão mudanças na Previdência.

“O que eu quero aos senhores é sacrifício também. Entraremos, sim, numa nova Previdência que atingirá os militares, mas não esqueceremos especificidades de cada Força”, afirmou o ex-deputado em cerimônia de celebração dos 211 anos do Corpo de Fuzileiros Navais no Centro do Rio de Janeiro.
O capitão da reserva também disse que a democracia depende da vontade dos militares. “A missão será cumprida ao lado das pessoas de bem do nosso Brasil, daqueles que amam a pátria, daqueles que respeitam a família, daqueles que querem aproximação com países que têm ideologia semelhante à nossa, daqueles que amam a democracia. E isso, democracia e liberdade, só existe quando a sua respectiva Força Armada assim o quer”, afirmou.
A PEC (Proposta de Emenda à Constituição) da reforma da Previdência enviada pelo Palácio do Planalto em fevereiro não inclui os militares. A promessa do governo é apresentar outra proposta específica para a categoria.
No Congresso, o envio de um texto com mudanças na aposentadoria das Forças Armadas é uma demanda dos parlamentares para avançar com a tramitação da PEC para civis.
A comissão especial sobre o tema só será instalada após a definição das comissões permanentes da Câmara dos Deputados, o que está previsto para a próxima semana. Alguns partidos têm exigido a apresentação de uma reforma dos militares para indicar os integrantes do colegiado.

Militar aposenta?

Nas Forças Armadas, o entendimento é de que “aposentadoria” não é o termo correto, uma vez que o militar na reserva pode ser convocado em caso de guerra, por exemplo. Já os militares reformados são aqueles afastados definitivamente.
Diferentemente dos civis, os militares não contribuem para a própria aposentadoria, que é paga pelo Tesouro Nacional. O percentual do salário descontado mensalmente vai para o pagamento de pensões. No INSS, não há distinção. O trabalhador contribui para pagar ambos os benefícios do sistema.
Em relação ao rombo nas contas públicas, os números dos militares são mais graves que os dos civis, proporcionalmente. O déficit na Previdência dos militares até novembro de 2018 subiu 12,85% em relação ao mesmo período de 2017, de R$ 35,9 bilhões para R$ 40,5 bilhões.
Já no regime dos servidores civis da União (RGPS), o déficit somou R$ 43 bilhões até novembro do ano passado, alta de 5,22% em relação a igual período de 2017.
No sistema do INSS, para trabalhadores da iniciativa privada, o rombo aumentou 7,4% na mesma base de comparação. A previsão é de um rombo de 218 bilhões para 2019, segundo estimativa do governo federal no orçamento anual.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Governo divulga regras e calendário do Imposto de Renda 2019

A partir deste ano, os contribuintes precisarão informar o CPF de todos os dependentes no Imposto de Renda© . A partir deste ano, os contribuintes precisarão informar o CPF de todos os dependentes no Imposto de Renda
O governo divulgou, em publicação do Diário Oficial da União desta sexta-feira 22, as regras para a declaração do Imposto de Renda de 2019, referente ao exercício de 2018.
Pela instrução normativa, a declaração deve ser apresentada entre os dias 7 de março e 30 de abril, através internet, e são obrigados a declarar todos os trabalhadores que receberam rendimentos tributáveis maiores que 28.559,70 reais na soma do ano de 2018.
Também devem declarar aqueles que receberam rendimentos isentos (não tributáveis ou tributados exclusivamente na fonte), cuja soma foi superior a 40.000 reais no último ano. 
O programa gerador da declaração estará disponível até a próxima semana, no site da Receita Federal. O formulário e um passo a passo para seu preenchimento serão fornecidos na mesma página.
Aqueles que não cumprirem o prazo até 30 de abril estarão sujeitos a multa, que terá valor mínimo de 165,74 reais e máximo correspondente a 20% do imposto devido.
Pessoas físicas podem optar pelo desconto simplificado, correspondente à dedução de 20% do valor dos rendimentos tributáveis na declaração de Ajuste Anual, limitado a 16.754,34 reais.
O saldo do imposto pode ser pago em até oito parcelas mensais e sucessivas, sendo que nenhuma delas pode ser inferior a 50 reais. No caso de imposto total inferior a 100 reais, é obrigatório o pagamento em cota única.
Esses pagamentos podem ser realizados por transferência eletrônica,  Documento de Arrecadação de Receitas Federais (Darf) ou débito automático em conta corrente bancária.
A relação completa de regras pode ser acessado no site da Imprensa Oficial.

CPF dos dependentes

A partir deste ano, os contribuintes precisarão informar o CPF de todos os dependentes no Imposto de Renda. É recomendado que o contribuinte providencia o documento antes de março.
A medida da Receita Federal visa evitar fraudes, como declaração de dependentes fictícios ou o uso de um mesmo dependente em duas declarações para pagar menos imposto são algumas das formas de burlar o Fisco que podem ser evitadas com a medida. 
O cadastro de menores de 16 anos pode ser feito no Banco do Brasil, na Caixa Econômica Federal e nos Correios, sob o custo de 7 reais. Não existe idade mínima para inscrição no CPF, e o número é emitido imediatamente.
Os documentos necessários são certidão de nascimento ou documento de identificação oficial com foto do menor, documento de identificação oficial com foto do solicitante, (um dos pais ou responsável pela guarda). 
Até 2017, só crianças a partir de 12 anos precisavam estar registradas no CPF, em 2018 essa idade diminuiu para 8 anos.  Em 2018, foram emitidas 10.367.021 inscrições de CPF, das quais 6.069.609 foram para menores de 8 anos de acordo com o órgão.

Mourão diz que só vê confronto com Venezuela se Brasil for atacado: 'Mas Maduro não é louco a esse ponto'

Mourão diz que 'não pensa' em se candidatar à presidência após governo Bolsonaro© Reuters Mourão diz que 'não pensa' em se candidatar à presidência após governo Bolsonaro
A última quinta-feira foi um dia movimentado para o vice-presidente, Hamilton Mourão. No Anexo II do Palácio do Planalto, ele passou boa parte do dia concedendo entrevistas para agências de notícias e canais internacionais. Seus assessores diziam ser um dia "atípico", dado o movimento, e afirmando que o vice respondeu a perguntas em português, inglês e espanhol.
Mourão, de 65 anos, parecia cansado quando recebeu a BBC News Brasil pouco depois das 17h30. Horas antes, a crise na Venezuela havia se intensificado, após o presidente Nicolás Maduro ter anunciado o fechamento da fronteira com o Brasil para evitar o envio da ajuda humanitária solicitado pelo autoproclamado presidente venezuelano Juan Guaidó.
Enviado pelo presidente Bolsonaro para a reunião do Grupo de Lima, que vai discutir na próxima segunda-feira a crise em Caracas, Mourão, no entanto, segue atuante na política doméstica.
Nos 24 minutos de conversa com a reportagem, ele falou sobre as denúncias de corrupção que envolvem membros do PSL, partido do presidente Bolsonaro, e sobre a Reforma da Previdência. Evitou, no entanto, falar sobre o conteúdo dos áudios de diálogos entre Bolsonaro e Gustavo Bebianno, primeiro ministro a ser demitido no novo governo.
Questionado sobre a influência dos filhos do presidente no governo, o vice disse considerar que haverá um distanciamento político natural de Carlos, Eduardo e Flávio da administração do pai.
"(Carlos) está na vibe da campanha, isso vai diminuir"
Sobre o ponto da Reforma da Previdência que altera regras da assistência social e, portanto, afeta a população mais pobre, Mourão não respondeu se considera justa a mudança.
"É a visão da equipe econômica e é a visão que o governo concordou. Agora, vai competir ao Congresso chegar à conclusão sobre se isso é factível ou não. Se o Congresso julgar que isso não é factível, vai permanecer como está", disse.
Confira os principais trechos da entrevista:
BBC News Brasil - Na sua avaliação, a situação da Venezuela, cada vez mais grave, pode resvalar para um conflito regional?
Hamilton Mourão - Eu acho que conflito regional, não. Da nossa parte nós jamais entraremos em uma situação bélica com a Venezuela, a não ser que sejamos atacados, aí é diferente, mas eu acho que o Maduro não é tão louco a esse ponto, né.
E também vejo ali do lado mais complicado, que é o lado colombiano, acho que vai ficar nessa situação de impasse, como está.
A questão interna é um problema.
BBC News Brasil - A mensagem que ele passa ao fechar a fronteira é muito forte. O que isso significa para o governo brasileiro?
Mourão - Na minha visão, ele fechou a fronteira exatamente para impedir que os venezuelanos viessem ao Brasil para pegar suprimentos. Ele quer manter o país fechado. Por que não acredito que ele imaginasse que nós entraríamos em força dentro da Venezuela - nós já reiteramos inúmeras vezes que não faríamos isso - para levar suprimentos.
BBC News Brasil- Nesta quinta, o vice-presidente dos EUA, Mike Pence, anunciou que viajará para a Colômbia para participar da reunião do Grupo de Lima - para a qual o senhor também vai. O Brasil poderia fazer parte de uma operação militar para retirar Maduro do poder ou para levar ajuda? O quão longe o Brasil iria? Como o senhor vê o papel do governo Trump nesta crise.
Mourão - Primeiramente, o Brasil tem um pensamento, há anos, de não interferir em assuntos internos de outros países. Então, não fazemos nenhum avanço militar sobre o território venezuelano. Este é o ponto principal. Nós podemos ajudar com auxílio humanitário, colocando suprimentos do nosso lado da fronteira, para que os venezuelanos possam vir para o Brasil e pegar.
Sobre o governo Trump, estão fazendo as pressões que podem, no lado político e econômico, para tentar fazer Maduro sair do país para que a Venezuela possa voltar aos eixos.
Após dois meses de governo, Mourão acredita que seu papel continua sendo de escudo e espada do presidente Bolsonaro© Reuters Após dois meses de governo, Mourão acredita que seu papel continua sendo de escudo e espada do presidente Bolsonaro
BBC News Brasil - O senhor já falou que seria o escudo e a espada do presidente Bolsonaro. Agora, com quase dois meses no governo, como é que o senhor vê o papel do vice-presidente?
Mourão - Exatamente dessa forma. Eu e o presidente procuramos nos complementar nos trabalhos que estão sendo realizados. A minha visão da função do vice-presidente é exatamente para segurar a estabilidade do país nos afastamentos do presidente, que já ocorreram nesse começo de governo. Dessa forma, nós temos mantido essa relação.
BBC News Brasil - Agora, ele deixou o senhor apenas dois dias na Presidência quando ele estava lá internado, foi uma falta de confiança? Ele ficou inclusive mais tempo internado do que o previsto. Como o senhor viu isso?
Mourão - Acho que no momento inicial ele julgava que fosse ficar pouco tempo, então ele pensou que assim que saísse da UTI, ele estaria em condições de assumir o governo. E, como não aconteceu, ele também não quis voltar atrás do que estava decidido. Acho que não teve problema nenhum.
BBC News Brasil - O presidente alegou, por meio do porta-voz, motivo de "foro íntimo" para demitir o agora ex-ministro Bebianno. Na verdade isso não é uma questão pública, em vez de íntima?
Mourão - Tudo na vida tem relacionamento. E óbvio que o presidente e seus ministros têm um relacionamento e o ex-ministro Bebianno já vinha com o presidente há algum tempo. Eu acho que essa relação veio se desgastando por diversos motivos e o ponto final, a ruptura disso aí, foi aquela... o presidente sabia da divulgação dos áudios dele, já tinham sido na realidade divulgados. Então ali ele considerou que a confiança tinha sido quebrada.
Vice-presidente evitou falar sobre o conteúdo dos áudios de diálogos entre Bolsonaro e Bebianno© Reuters Vice-presidente evitou falar sobre o conteúdo dos áudios de diálogos entre Bolsonaro e Bebianno
BBC News Brasil - Agora, além do ex-ministro Bebianno, a gente tem o ministro do Turismo (Marcelo Álvaro Antônio) sobre quem pesam acusações parecidas com as do ex-ministro Bebianno. O senhor foi eleito com uma chapa muito baseada na moralidade, no combate à corrupção... como o senhor vê isso com a manutenção do ministro do Turismo? Qual deve ser a resposta a essas denúncias?
Mourão - As denúncias devem ser investigadas. O presidente já determinou que a Polícia Federal investigue. Uma vez comprovada a veracidade das denúncias, que elas têm consistência, eu não tenho dúvida de que o presidente irá exonerar o ministro.
BBC News Brasil - O presidente Jair Bolsonaro sabia do uso, no PSL, desse esquema que foi denunciado de candidaturas laranja?
Mourão - Tenho absoluta certeza que não. O presidente não era o dono do PSL, era apenas um candidato do PSL e, obviamente, estava preocupado com a montagem da campanha dele. Vamos lembrar que ele era deputado federal, passou para o PSL no começo do ano passado, começou a se dedicar àquelas viagens iniciais ainda antes da campanha e quando começou a campanha para valer, que era um momento aí de distribuição de recursos, ele imediatamente sofreu o atentado e ficou dentro do hospital.
BBC News Brasil - Há uma insatisfação em diferentes meios com o papel que os filhos do presidente estão tendo no governo. O senhor avalia que essa proximidade dos filhos do presidente pode ser prejudicial para o governo?
Mourão - A família Bolsonaro é uma família unida. Isso é uma coisa bonita. Os filhos são bem sucedidos, três homens aí que se candidataram, que foram eleitos com uma votação expressiva para senador, deputado federal, vereador. Eu acho que, com o passar do tempo, cada um irá entender o tamanho da cadeira que eles têm, e vão se dedicar mais às funções legislativas para as quais foram eleitos.
BBC News Brasil - O senhor acha então que o ideal é que haja um afastamento natural deles?
Mourão - É natural. É começo de governo, eles são muito unidos em cima da figura do pai. Agora que eles estão vendo que o pai realmente está com a saúde recuperada, eu acho que isso vai ser um distanciamento normal. Um distanciamento político, não da vida pessoal, porque filho é filho.
BBC News Brasil - Quando o senhor fala no tamanho da cadeira eu penso principalmente no Carlos, que é o único que não tem um cargo federal, ele é vereador no Rio de Janeiro. O senhor está falando dele, ele é quem precisa tomar mais esse cuidado para não influenciar?
Mourão - O Carlos tem uma proximidade muito grande com o pai, ele trabalhou muito durante a campanha. Eu acho que ele ainda está naquele clima, vamos dizer assim, para usar um termo da juventude, nessa vibe, ele ainda está nessa. Mas isso vai passar.
BBC News Brasil - Na vibe da campanha?
Mourão - Na vibe da campanha, isso vai diminuir.
BBC News Brasil - Falando do Carlos, ainda, em uma entrevista à rádio Jovem Pan, o ex-ministro Bebianno insinuou que um tuíte do Carlos em novembro, em que ele dizia que alguns desejavam a morte do presidente, tinha o senhor como alvo. Qual origem desse clima de conspiração no governo?
Mourão - Eu não sei e é aquela história, eu não dou bola, não me importo com essas coisas, com esses comentários. Porque eu acho que essa questão de rede social, o pessoal escreve muito o que quer, e depois se dá conta de que depois que as palavras estão escritas, depois que saíram da boca, não podem voltar. Então eu prefiro manter um certo distanciamento disso aí.
'Conheço o presidente Bolsonaro desde que esses meninos eram pequenos, conheço a mãe deles, então sei que são gente de boa índole', diz Mourão© Reuters 'Conheço o presidente Bolsonaro desde que esses meninos eram pequenos, conheço a mãe deles, então sei que são gente de boa índole', diz Mourão
BBC News Brasil - Esse recado também serve para o presidente, outros ministros que estão bastante ativos na rede social também?
Mourão - Não, eu também tenho a minha rede social, mas eu acho que a gente tem que pensar duas vezes antes de escrever alguma coisa.
BBC News Brasil - Depois da eleição, o senhor falou que os filhos do presidente são pessoas de boa moral e bons costumes. Considerando esse começo de ano, em que se falou muito sobre uma investigação envolvendo um ex-assessor do senador Flavio Bolsonaro, e agora todas essas questões envolvendo o Carlos, as manifestações dele no Twitter...O senhor continua com essa avaliação?
Mourão - É, eu tenho essa avaliação, eles foram bem educados, eu conheço o presidente Bolsonaro desde que esses meninos eram pequenos, conheço a mãe deles, então sei que são gente de boa índole.
BBC News Brasil - Na posse do ministro da Defesa, o general Fernando Azevedo e Silva, o presidente disse ao general Villas Bôas (ex-comandante do Exército) que ele era o responsável pela eleição da chapa dos senhores. Qual foi o papel do então comandante do Exército na eleição da chapa dos senhores?
Mourão - Vou te responder com toda sinceridade: apenas as moscas que estavam na sala devem saber, por que eu não sei qual foi a conversa que o Bolsonaro teve com o general Villas Bôas.
BBC News Brasil - O senhor não perguntou pra ele?
Mourão - É um assunto pessoal, particular.
BBC News Brasil - Muito se fala sobre as diversas alas do governo, ala militar, a ala mais ideológica, olavista, como se diz. Há os superministros, o Sergio Moro, Paulo Guedes. Existe uma disputa de poder dentro do governo? Quem vai ganhar?
Mourão - Não tem disputa de poder. Está cada um com seu nicho de mercado, cada um tem a sua responsabilidade, a sua tarefa.
Essa questão de militares, circula pela imprensa "os militares se reuniram". Ninguém se reúne aqui, só se reúne quando tem reunião do conselho de governo. Passasse uma imagem de que todo dia, na calada da noite, o (general Augusto) Heleno (ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional), o (general Carlos Alberto) Santos Cruz (ministro da Secretaria de Governo), o (almirante) Bento (Costa, ministro das Minas e Energia), o (general) Fernando (Azevedo e Silva, ministro da Defesa), nos concentramos em algum lugar para tramar o que vai ser feito no dia seguinte. Não, está cada um preocupado em cumprir a tarefa que o presidente nos designou.
BBC News Brasil - Sobre a reforma da Previdência, o senhor apresentou um cálculo de que o governo teria hoje 250 dos 308 votos necessários. Como o senhor acredita que vão conseguir os 60 votos, nesse momento delicado, com saída de ministro do Planalto?
Mourão - Isso vai ser um processo. Agora se inicia a análise de todas as nuances que estão colocadas. Teremos que trabalhar em cada uma das condições que serão montadas para analisar esse processo, conversar com os relatores, os deputados. Aqueles que tiverem dúvidas, teremos que mostrar a eles resultados positivos que virão disso aí e os negativos, se a emenda não for aprovada.
BBC News Brasil - A proposta da Previdência inclui a previsão de pagar R$ 400 para idosos de uma faixa etária que hoje tem direito a um salário mínimo. O Temer tentou alterar o BPC (Benefício de Prestação Continuada) e não conseguiu. O senhor acha justo?
Mourão - Olha, é a visão da equipe econômica e é a visão que o governo concordou. Agora, vai competir ao Congresso chegar à conclusão sobre se isso é factível ou não. Se o Congresso julgar que isso não é factível, vai permanecer como está.
BBC News Brasil - A proposta de alteração no sistema de proteção social dos militares, que equivale à Reforma da Previdência dos civis, é estudada há anos pelas Forças Armadas e está pronta. Por que não mandar junto com a Reforma da Previdência, se ela está pronta?
Mourão - Ela foi decidida no apagar das luzes da terça-feira. O que acontece é que tem que mexer em cinco leis, então está sendo trabalhado juridicamente. Tem que mexer na lei de promoção de oficiais, na lei de promoção de praças, na lei de remuneração, no estatuto dos militares. Vai ter que reescalonar carreiras, mudar interstícios de promoção, então vai levar um pouco mais de tempo para preparar.
BBC News Brasil - Mas não dá a impressão de que os militares estão sendo poupados?
Mourão - É sempre aquela dicotomia. Uma (Reforma da Previdência) é emenda constitucional, tem processo mais lento. E o projeto de lei dos militares é muito mais rápido, só necessita de maioria simples para ser aprovado. E eu tenho certeza de que dentro do Congresso existe maioria simples pronta para aprovar qualquer coisa relativa aos militares.
BBC News Brasil - Em entrevista à revista Época, o senhor sugeriu que o título de uma matéria fosse "Terá Ernesto (Araújo) condições de tocar e dizer o que é a política externa do Brasil? Porque ele não falou o que pretende fazer". O senhor continua pensando dessa forma sobre o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo?
Mourão - Não. Eu mudei meu pensamento em relação ao nosso chanceler. Ele está organizando o Itamaraty de acordo com as ideias que ele tem e está colocando foco nas diretrizes do presidente.
BBC News Brasil - Então tem duas políticas externas no governo? Enquanto o Itamaraty sinaliza com uma política de aproximação intensa com a política do governo Trump, continua defendendo a transferência da embaixada para Jerusalém e adota um discurso anti-China, o senhor se encontra com representantes de países árabes, com chineses. Existem duas políticas externas no governo Bolsonaro?
Mourão - Não existem duas políticas externas. Nós não podemos abandonar em hipótese alguma a China e o presidente sabe disso muito bem. Temos uma comissão de alto nível com a China, que é responsável por 32% das nossas exportações. Não podemos simplesmente virar as costas para a China. Em relação aos países árabes, eu os atendi pelas demandas que eles tinham. Em relação à embaixada, não tem nada decidido, vamos aguardar a decisão do presidente.
BBC News Brasil - Há uma impressão, externa, inclusive, de que o senhor é muito mais aberto, mais diplomático. É verdade?
Mourão - Eu não vejo como uma questão de diplomático. A questão é das ideias que estão sendo debatidas. Aquilo que não está decidido tem que ser discutido.
BBC News Brasil - No início do mês o senhor disse considerar que o aborto é uma "decisão da mulher", defendendo inclusive possibilidade de aborto no caso de quem não tem condições de manter o filho. A declaração causou críticas em parte dos seus eleitores? Existe alguma chance de esse assunto ser discutido neste governo?
Mourão - Não. O nosso governo é muito claro: ele é contra o aborto. E eu deixei claro ao meio de imprensa que eu transmiti de que isso é uma opinião pessoal minha, não tem nada a ver com a opinião do governo. O governo é contra o aborto.
BBC News Brasil - Durante a campanha, o senhor foi criticado por parte da imprensa após declarações polêmicas sobre a ditadura e a possibilidade de autogolpe. Depois da posse, passou a ser elogiado até por críticos do governo por diversas declarações que contradizem algumas políticas que são defendidas por outros setores do governo. O que mais do vice-presidente Mourão pode surpreender? Que visões ainda não vieram à tona?
Mourão - As pessoas não me conhecem. Essa é a questão. As pessoas têm a mania de rotular por um ou outro pensamento que você coloca. A questão da ditadura, como é chamada, eu não canso de dizer: eu não era vivo na época do Getúlio (Vargas). Então é uma questão até que tem que ser estudada e debatida. O autogolpe, se assistirem à entrevista, vão ver que era em situação hipotética, delineada por um jornalista, aí quando ele fez a menção sobre determinado momento que ocorreria, eu disse "mas isso é um autogolpe". Não que eu tivesse pregado um autogolpe.
Então o que as pessoas devem esperar de mim são posicionamentos coerentes com aquilo que adquiri ao longo da minha vida. Eu acredito plenamente no liberalismo econômico, acredito que a democracia é o melhor sistema de governo para um país e acredito que nosso governo tem as condições de recolocar o Brasil no trilho e num projeto que nos leve realmente avante.
BBC News Brasil - O senhor falou que tem opinião pessoal sobre aborto. Qual é?
Mourão - Já foi exprimida.
BBC News Brasil - Nos áudios com Bebianno, o presidente cita a Globo e usa a palavra "inimiga", e demonstra preocupação com como outras emissoras poderiam ver um representante da Rede Globo dentro do Palácio do Planalto. Como o senhor vê que grupos de comunicação sejam classificados como inimigos e, portanto, como amigos também?
Mourão - Não vou entrar na discussão do mérito do que o presidente falou porque não compete a mim esse tipo de comentário. A única coisa que eu deixo claro é o seguinte: isso era uma conversa privada, entre o presidente e o ministro, se referindo a uma terceira pessoa. Então jamais poderia ter sido divulgada.
BBC News Brasil - Nos Estados Unidos, o vice de Obama, Joe Biden, é cotado como forte candidato às eleições presidenciais. O senhor pensa após o governo Bolsonaro em se candidatar à Presidência?
Mourão - Não, não penso. A minha visão, quando eu passei para a reserva, no começo do ano passado, era residir no Rio de Janeiro, na minha casa, onde nunca tinha conseguido morar, ser presidente do Clube Militar, que fui eleito.
Ocorreu que o presidente Bolsonaro me sinalizou que poderia precisar de mim em algum momento e pediu que eu me filiasse a algum partido político. Foi o que eu fiz e acabou acontecendo essa situação, de eu ser vice na chapa dele.
Óbvio que, ao término deste mandato, se ele concorrer à reeleição e quiser que eu ainda esteja com ele, eu o acompanho. Caso contrário, eu retorno para a minha vida de aposentado.